Financiamento climático: quem paga o agro sustentável?
Financiamento climático envolve um aporte global de US$ 8 trilhões anuais, até 2035, para limitar o aquecimento a 1,5 °C e tornar a produção de alimentos mais limpa.
Trilhões na mesa e a conta dos países ricos
O cálculo é do Grupo de Especialistas Independentes da London School of Economics, apresentado na COP 2024. Para emergentes, como o Brasil, a necessidade combinada chega a US$ 3,5 trilhões por ano. Um acordo pós-COP determinou que nações ricas destinem, no mínimo, US$ 300 bilhões até 2035, com meta de alcançar US$ 1,3 trilhão. A maior parte virá em empréstimos, não em doações, elevando o debate sobre juros mais baixos que os de mercado. Modelos inovadores, como o Tropical Forests Forever Fund (TFFF), propõem títulos de renda fixa para remunerar a conservação.
Crédito rural puxa a transição no Brasil
No Brasil, 58% do dinheiro para agricultura de baixo carbono provém do crédito rural, segundo a Climate Policy Initiative (CPI). Na safra 2024/25, R$ 69,2 bilhões foram contratados para práticas como plantio direto e integração lavoura-pecuária-floresta, apenas 23,2% do total liberado. Linhas do Plano Safra, como RenovAgro (ex-ABC) e modalidades do Pronaf, oferecem taxas inferiores ao CDI — índice que baliza rendimentos no mercado — porém representam só 17% do crédito subsidiado.
Por que o dinheiro não chega aos pequenos?
Produtores familiares, pescadores, quilombolas e povos indígenas esbarram em exigências bancárias e falta de documentos básicos. Iniciativas como o programa CredAmbiental treinam “ativadores de crédito” para reunir papéis, negociar com bancos e planejar o uso dos recursos. O resultado: 98% de adimplência, segundo a ONG Conexsus. Mesmo assim, bancos preferem grandes projetos que diluem custos de auditoria, explica o Imaflora.
Doações e fundos climáticos: participação ínfima
Filantropia responde por apenas 0,06% do financiamento climático ligado a agropecuária e florestas; fundos climáticos, por 0,2%. O Fundo Amazônia, retomado em 2023, destina doações a projetos sem reembolso e ajudou a reduzir o desmatamento. Já o Fundo Clima possui R$ 24 bilhões para spread — diferença entre custo de captação e taxa cobrada — em empréstimos operados pelo BNDES, mas menos de 1% em recursos não reembolsáveis.
Segundo reportagem do Valor Econômico, especialistas defendem combinar crédito acessível com doações para gerar renda e restaurar florestas, reduzindo o impacto do IOF — imposto cobrado nos empréstimos.
O futuro do financiamento climático será debatido novamente na COP 30, em Belém. Até lá, ampliar o alcance do crédito rural verde e destravar recursos a fundo perdido é vital para que a conta dos trilhões feche de forma justa.
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Crédito da imagem: G1
Fonte: G1