A desvalorização de milhas e pontos é a perda do poder de compra desses ativos em programas de fidelidade. Em 2026, isso se reflete no aumento de pontos para resgates, como passagens aéreas, e promoções menos vantajosas. Acumular exige hoje uso rápido e estratégia apurada para gerar valor. Para a maioria dos brasileiros, o sonho de viajar “de graça” com pontos do cartão de crédito se transformou em uma corrida frustrante contra a inflação dos programas de fidelidade, onde o saldo acumulado vale cada vez menos. A lógica de guardar pontos para uma grande viagem futura não apenas deixou de ser inteligente, como se tornou uma estratégia de perda garantida. O jogo mudou, e quem não se adaptar está, literalmente, rasgando dinheiro. A verdade é que o valor percebido das milhas foi corroído por uma combinação de fatores: aumentos agressivos nos custos de resgate, promoções de transferência com bônus cada vez menores e uma complexidade que beneficia apenas as companhias e os especialistas no assunto.
Desvalorização de Milhas: O Que Mudou no Valor dos Seus Pontos
O conceito de “inflação das milhas” deixou de ser um termo de nicho para se tornar a realidade de todos os participantes de programas de fidelidade. Na prática, isso significa que a mesma quantidade de milhas que comprava uma passagem para Buenos Aires há alguns anos hoje mal cobre um trecho nacional em promoção. Essa perda de poder de compra é o cerne da desvalorização de milhas.
O cenário tornou-se tão crítico que está em vias de ser regulamentado. A Câmara dos Deputados aprovou, em agosto de 2026, o Projeto de Lei 3083/2026, que agora segue para o Senado. A proposta ataca um ponto central: se um programa vende pontos ou oferece clubes de assinatura, ele seria obrigado a fornecer um mecanismo oficial para converter esses pontos em dinheiro. Caso contrário, não poderia mais proibir ou restringir a venda de milhas pelos clientes, uma prática comum que hoje resulta em bloqueios de conta. Essa mudança, se aprovada, pode redefinir completamente o mercado, a ponto de algumas análises, como a divulgada pelo portal Panrotas, apontarem para o risco de inviabilização do modelo atual das companhias aéreas, que ficariam sem mecanismos para impedir a comercialização em massa de milhas.
Enquanto a lei não vem, o prejuízo se acumula. Análises do setor de fidelidade, como as divulgadas por portais como Mírian Gasparim e Soulbrasil, estimam que cerca de 60 bilhões de milhas expiram anualmente no Brasil. É um patrimônio financeiro evaporando por falta de uso ou de uma estratégia clara. Os programas de fidelidade, como Livelo, Esfera, Smiles, Latam Pass e TudoAzul, se beneficiam dessa inércia. O consumidor, por outro lado, vê seu esforço de concentração de gastos no cartão de crédito se esvair. A validade dos pontos, que em alguns casos como o da Smiles pode chegar a 20 anos dependendo da categoria do cliente, cria uma falsa sensação de segurança, mascarando a contínua desvalorização do saldo.
A Escalada dos Custos de Resgate: Onde Seus Pontos Valem Menos Hoje
O principal campo de batalha onde a desvalorização de milhas se manifesta é no resgate de passagens aéreas. Os custos dispararam de forma desproporcional. O mercado opera com uma precificação dinâmica que torna quase impossível para o consumidor médio planejar uma viagem. Os valores flutuam drasticamente, e a variação nos preços em milhas é, muitas vezes, maior do que a variação dos mesmos bilhetes em reais.
Um exemplo concreto dessa tendência foi o reajuste promovido pelo Latam Pass em sua tabela fixa para voos com companhias parceiras. Desde 2 de março de 2026, o programa aplicou um aumento de 20% no custo de resgate da maioria das rotas internacionais, afetando todas as classes de serviço. Contudo, para ser preciso, a mudança também trouxe uma única redução de 33% na rota entre América Central e Europa, conforme noticiado pelo portal Melhores Cartões, mostrando a complexidade por trás das alterações. Essa não é uma flutuação de mercado, mas uma mudança estrutural que torna o acúmulo de pontos menos rentável. Dados de maio de 2025, divulgados pela Panrotas, já indicavam que o resgate de passagens internacionais com milhas havia sofrido um aumento de 35%, um sinal claro da tendência de alta.
Para entender o custo real, é fundamental analisar o valor do “milheiro” (lote de 1.000 pontos ou milhas), que é a unidade de medida deste mercado. Com base em levantamentos de julho de 2026 compilados por sites como o Melhores Destinos, as faixas de custo para aquisição em promoções competitivas dão uma dimensão do jogo.
Custo-Alvo do Milheiro em Campanhas (Julho de 2026)
| Programa de Fidelidade | Faixa de Custo Competitivo (por 1.000) |
|---|---|
| Azul Fidelidade | R$ 12 a R$ 16 |
| Smiles | R$ 15 a R$ 18 |
| LATAM Pass | R$ 24 a R$ 27 |
| Pontos (Livelo/Esfera) | R$ 28 a R$ 35 |
Custo antes da aplicação de bônus de transferência para companhias aéreas.
O que essa tabela revela é que o custo para “fabricar” milhas é significativo. O valor do milheiro do LATAM Pass, por exemplo, é mais alto devido à menor frequência e generosidade de suas promoções, segundo análises de mercado. Quando um resgate que antes custava 80.000 milhas passa a custar 100.000, o consumidor precisa gastar muito mais para gerar esse saldo, seja via cartão, clube de assinatura ou compra direta de pontos.
Promoções e Bônus em 2026: A Nova Realidade das Transferências
As famosas promoções de transferência com 100% de bônus, que por anos foram o pilar da estratégia de muitos acumuladores, tornaram-se raras. O “novo normal” em 2026 é de bonificações mais modestas. Isso exige um cálculo muito mais apurado por parte do consumidor. Não basta olhar o percentual do bônus; é preciso considerar o custo de aquisição original dos pontos em programas como Livelo e Esfera. Segundo dados de mercado de 2026, o custo para comprar mil pontos Livelo variou de R$ 28 a R$ 32 em campanhas, enquanto na Esfera a faixa foi de R$ 31,50 a R$ 35. Uma transferência com 80% de bônus partindo de um ponto que custou R$ 30 pode ser menos vantajosa do que uma com 50% sobre um ponto adquirido a R$ 20.
As promoções atuais refletem essa nova realidade:
- LATAM Pass e KMV: Uma campanha em outubro de 2026, noticiada pelo Melhores Cartões, ofereceu 45% de bônus na transferência, resultando em um custo final de R$ 26,55 por milheiro.
- Livelo e Etihad Guest: Uma oferta vigente até o fim de outubro de 2026, conforme o portal Cartões e Viagens, dava até 40% de bônus, um percentual atrativo para um programa internacional, mas longe dos antigos 100% ou mais.
- Smiles: O próprio programa divulgou uma oferta de até 250% de bônus, mas a promoção era para transferências entre contas Smiles, uma operação com custo e finalidade muito específicos, não para transferência de pontos de bancos.
Essa mudança de paradigma significa que a estratégia de acumular pontos em bancos emissores para esperar uma grande promoção de transferência perdeu eficiência. O tempo de espera aumenta o risco de uma nova desvalorização que pode anular completamente o ganho do bônus.
Além das Passagens Aéreas: O Impacto da Desvalorização em Outros Resgates
Diante da dificuldade e do alto custo para resgatar voos, muitos consumidores migram para resgates alternativos: produtos, serviços, vales-presente e até cashback. De acordo com a Associação Brasileira das Empresas do Mercado de Fidelização (ABEMF), no quarto trimestre de 2025, os resgates não aéreos atingiram 32,7% do total, um dos maiores patamares para o período. Os programas, claro, incentivam essa diversificação.
Aqui reside uma das maiores armadilhas para o consumidor desatento. A conversão de milhas para produtos de varejo quase sempre representa o pior valor possível para os seus pontos. Uma estimativa do setor de fidelidade, de agosto de 2026, indica que um em cada três resgates é para eletrodomésticos e outros itens de baixo valor. Na prática, o consumidor está trocando um ativo que poderia valer, por exemplo, R$ 20 (valor de um milheiro em uma boa venda) por um produto onde esse mesmo milheiro vale R$ 5 ou R$ 10.
Essa troca ineficiente é uma forma de “devolver o patrimônio para os bancos e companhias aéreas sem o devido retorno”, como aponta uma análise do portal Mírian Gasparim. O consumidor, com medo de ver seus pontos expirarem, aceita qualquer negócio para não “perder tudo”. O que ele não percebe é que, ao resgatar uma cafeteira por 30.000 pontos, ele pode estar abrindo mão de um ativo que, bem utilizado, poderia gerar um retorno financeiro muito maior, seja em uma passagem ou na venda direta. Muitos ainda enxergam os pontos como um “brinde”, e não como um recurso financeiro, o que os torna presas fáceis da desvalorização.
Para Quem Ainda Vale a Pena Acumular Milhas em 2026?
Apesar do cenário pessimista, seria um erro decretar o fim absoluto das milhas. A questão não é se elas valem a pena, mas para quem e sob quais condições. O acúmulo de milhas deixou de ser uma estratégia passiva para se tornar um jogo ativo que exige conhecimento e dedicação. Na nossa leitura, o jogo ainda favorece três perfis específicos:
- O Estrategista Dedicado: Este é o consumidor que trata milhas como um investimento. Ele estuda o regulamento dos programas, acompanha promoções, entende o custo de geração de cada ponto e tem objetivos claros e de curto prazo. Ele não acumula por acumular; ele “fabrica” milhas para uma emissão específica e executa o plano rapidamente, minimizando o risco da desvalorização.
- O Viajante com Alta Flexibilidade: Pessoas que podem viajar em datas não convencionais, fora de temporada e com pouca antecedência. Este perfil consegue aproveitar as raras oportunidades de resgates promocionais que surgem de forma imprevisível. Para quem precisa viajar no Natal com a família, a chance de encontrar um bom resgate com milhas é próxima de zero.
- O Consumidor de Altíssimo Gasto: Clientes com cartões de alta renda (como Black ou Infinite) que concentram gastos muito elevados (gastos muito elevados). O volume de pontos gerado por eles é tão grande que, mesmo com a desvalorização, o acúmulo orgânico ainda é suficiente para viabilizar resgates relevantes sem a necessidade de estratégias complexas de compra e transferência de pontos.
Para o consumidor médio, que gasta valores moderados no cartão, não tem tempo para acompanhar o mercado e precisa de datas específicas para viajar, o acúmulo de milhas se tornou uma fonte de frustração. O esforço e o custo de oportunidade geralmente não compensam o benefício final.
Repensando a Estratégia: Alternativas ao Acúmulo Tradicional de Pontos
Se você não se enquadra nos perfis que ainda se beneficiam do jogo das milhas, é hora de repensar sua estratégia financeira. A alternativa mais direta, segura e transparente é o cashback.
O trade-off é claro. Milhas oferecem a possibilidade de um retorno altíssimo (um resgate em classe executiva, por exemplo), mas com alto risco, alta complexidade e nenhuma garantia. O cashback, por outro lado, oferece um retorno menor, porém garantido, líquido e imediato. Um cartão que oferece cashback real sobre os gastos devolve dinheiro na sua conta, que pode ser usado para qualquer fim, inclusive para comprar uma passagem aérea, sem depender de disponibilidade de assentos, tabelas de resgate ou regras que mudam a todo momento.
A decisão entre milhas e cashback é uma escolha entre risco e segurança.
- Prefira milhas quando: você tem um objetivo de viagem claro e de curto prazo, encontrou uma oportunidade de emissão e sabe exatamente como gerar o saldo necessário com o menor custo possível.
- Evite milhas e opte por cashback quando: você não tem planos de viagem definidos, não quer dedicar tempo para estudar o mercado e valoriza a previsibilidade e a liquidez do seu benefício.
A mentalidade do consumidor precisa evoluir. O objetivo não deve ser acumular o maior saldo de pontos possível, mas extrair o maior valor real dos gastos do dia a dia. Para a grande maioria, em 2026, isso significa trocar a promessa volátil das milhas pela certeza concreta do dinheiro de volta. O jogo não acabou, mas suas regras são outras, e a vitória agora exige uma estratégia muito mais consciente e, muitas vezes, mais simples.
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Aviso: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui orientação financeira profissional. Antes de tomar decisões, consulte um profissional de finanças habilitado.
Fontes
- camara.leg.br
- soulbrasil.com
- panrotas.com.br
- panrotas.com.br
- smiles.com.br
- latam.com
- abemf.com.br
- infomoney.com.br
- estadao.com.br
- miriangasparin.com.br